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Impressões Sobre Portugal por Suzanne Vega
"Portugal?", diz o meu irmão. "Não é
um país inteiramente costeiro?" diz ele, naquele modo americano
de falar que algumas pessoas têm.
Sim, é inteiramente costeiro, respondo-lhe eu. É uma costa
inteira, com milhas de praia. É um país piscatório,
onde os pescadores ainda partem para o mar todos os dias e as pessoas
cozinham sardinhas estirando-as pelas suas janelas, assando-as na grelha,
nas estreitas e tortuosas ruas das partes mais antigas de Lisboa. Lembro-me
de ter visto o oceano em Portugal pela primeira vez. Era de noite e o
restaurante do hotel oferecia uma vista sobre a água. Eu queria
saber qual era a cor? Azul ou turquesa ou verde?
Nunca tinha visto o oceano antes? queriam saber os meus anfitriões.
Certamente que eu já tinha visto o oceano, mas nunca este. Olhei
para a vastidão do mar naquela noite e depois na manhã seguinte,
observando a límpida e dourada luz do sol sobre tanta água
senti o peso da História. Sente-se esta História no mar;
o qual, evidentemente, é eterno; e nos edifícios. A luz
e a arquitectura combinam-se para criar paisagens belas e arrebatadoras,
tal como um quadro antigo - as torres e os relógios estampados
no jogo de nuvens e mar têm um colorido intenso e sedutor, tão
diferente da luz pálida, ténue e singela da Alemanha ou
do Norte de Inglaterra. Estes edifícios respiravam vida durante
os séculos que se seguiram à ocupação moura
do século VIII e continuam vivos até hoje, embora alguns
tenham graffitis bem modernos. Para aqueles que estão interessados
nesta História, muita da arquitectura está intacta porque
Portugal permaneceu à margem durante as duas Guerras Mundiais.
Mas para além de todos estes pesados sentimentos históricos,
também senti que todas as possibilidades se abriam para o futuro,
como se eu fosse uma espécie de Henrique o Navegador feminino,
contemplando as avenidas da exploração sobre o horizonte.
Tinha a impressão que, se esforçasse o olhar, talvez pudesse
ver o meu apartamento em Manhattan, que tem vista para o rio Hudson. Portugal
não está mumificado, ou guardado atrás de um vidro,
sobranceiramente histórico e cerimonioso; é acessível,
às vezes sujo, outras vezes elegante, mas sempre vivo e amável.
Em 1988 fui convidada para visitar o presidente Soares no seu palácio,
o que me surpreendeu, já que não estou habituada a receber
convites vindos de altas instâncias. Por que seria? perguntei a
mim mesma. "O seu álbum Solitude Standing teve muito
sucesso cá - na verdade as pessoas referem-se a si como a menina
da rádio", disseram-me.
Comecei a indagar. Será que o povo português gosta dele?
Será que a minha visita irá provocar algum protesto? Sim,
gostava. Não, não iriam protestar. Ele parecia possuir o
talento raro de ser capaz de agradar simultaneamente à ala esquerda
e direita - uma espécie de conservador liberal. Fiquei impressionada.
No meu país só se ouviam queixas contra o governo, especialmente
em Nova Iorque, e nunca tinha conhecido um povo que estivesse contente
com os seus representantes eleitos.
O Presidente foi atencioso, mas nenhum de nós falava a língua
do outro. Sorrimos muito um para o outro. Fui acompanhada por uma pessoa
da minha editora, pelo meu namorado e pelo meu empresário. Sentámo-nos
em linha, falámos durante alguns minutos, tirámos fotografias
e depois levantámo-nos e começámos a deambular pelo
bonito Palácio que tem algo de parecido com um museu. Circunstâncias
formais, mesmo tão informais quanto estas, fazem sempre sentir-me
desconfortável. Por isso pensei que deveria iniciar um movimento
para concluir a nossa visita e, a passos largos, caminhei ousadamente
em frente, na direcção das enormes portas da entrada e tentei
abri-las de par em par.
"Oh, Menina Vega, não quererá antes sair pela porta
da frente em vez de o fazer pela janela do segundo andar?", disse
o guarda, correndo até mim para evitar que eu me precipitasse pela
varanda fora. Ainda me dá vontade de rir quando penso nisto, mas
o Presidente foi afável e eu fiquei contente por ele ter disponibilizado
tempo para me convidar.
Nessa noite houve uma conferência de imprensa, numa pequena discoteca.
Contei esta história lá, o que fez rir as pessoas que estavam
à frente. Eu já tinha visto estas mesmas jovens raparigas
no aeroporto no dia anterior. As minhas memórias dizem-me que fui
recebida por uma pequena multidão quando cheguei. A realidade foi
que provavelmente não seriam mais que dez pessoas, mas lembro-me
dos fotógrafos e das fotografias que eles fugidiamente tiraram
ao meu rosto surpreso, à medida que nos afastávamos de carro.
Publicaram-nas com impaciente prazer nos jornais do dia seguinte.
Durante a minha visita almocei com alguns jornalistas, o que adorei, porque
o tempo estava ameno e soalheiro e comemos ao ar livre num restaurante
com azulejos pintados, junto à entrada. Havia folhas por cima das
nossas cabeças. Comemos peixe e bebemos vinho verde. Disse-lhes
que me sentia uma jornalista nas minhas canções e eles responderam
que sentiam que eram artistas.
"Porque é que escreveu sobre as mulheres portuguesas na sua
canção Ironbound?", queriam saber. Porque eu
tinha visto algumas mulheres portuguesas na zona de Newark conhecida por
Ironbound, em New Jersey, perto do local onde moro, e elas pareceram-me
muito bonitas e femininas e isso fez-me sentir como se estivesse muito
longe, num lugar romântico e acolhedor, como Lisboa. Quando canto
esse verso em palco, todas as oito mil pessoas do público em Lisboa,
Porto ou Cascais aplaudem, gritam e cantam em coro alegremente. Ondulam
os braços e celembram.
Houve uma mulher portuguesa que cantou e tocou guitarra na primeira parte
dos meus concertos. O nome dela era Pilar e cantou sozinha, sem nenhuma
banda ou outro acompanhamento. lembro-me sobretudo do seu cabelo escuro
e lustroso, das suas canções tristes e bonitas e da voz
que parecia que se rasgava dela ou que era arrancada de dentro dela. Num
minutto a sua voz acariciava, no outro ficava triste; cantava a meia voz,
soluçava, gritava e acusava. Exercia um efeito extraordinário
sobre o público, especialmente sobre os homens e os rapazes; eles
gritavam em resposta. Parecia não ter importância que palavras
ela cantava. Eles gritavam em resposta ao som puro da sua voz. Eu gritei
também, dentro de mim.
Acredito que a alma de Portugal, para além de estar no mar, está
nas suas canções. Uma noite fui a um pequeno clube, onde
uma mulher estava a cantar sem amplificação sonora, no centro
da sala, com a cabeça atirada para trás, como se estivesse
perdida em pranto ou gemendo. Todos se aproximavam para a ouvir. Este
era o canto do fado, um tipo de canto que começou no século
XVI e continua hoje. As canções falam do destino, da sorte
e das paixões humanas e normalmente são muio tristes. Compreendo
porquê.
Um homem imponente seguiu-se a ela e ouvi murmúrios de que este
cantor era um juíz na sua vida diária. Mais uma vez fiquei
impressionada, já que nos Estados Unidos nunca se veria um juíz
cantando num clube nocturno. Aqui parecia a coisa mais natural. Quem deveria
cantar acerca da sorte e do destinho humano senão um juíz?
À medida que ele cantava, virava-se em redor para que todos os
que estavam na sala o pudessem ver; pareceu olhar na minha direcção
e a sua boca abriu-se muito (por minha causa?); um tremendo som de canto
e lamento jorrou de dentro dele. Senti-me espalmada contra a parede e
por um momento fiquei aliviada por ele não ser meu pai e por não
ter nenhum motivo para estar zangado comigo, porque eu não quereria
provocar tamanha ira. Mais tarde falámos amigavelmente e ele deu-me
uma das suas gravações.
A última imagem que tenho de Portugal ocorreu um pouco antes do
Natal (1990), quando eu estava no nosso autocarro da digressão,
percorrendo as ruas animadas, olhando para as mercearias com enormes peças
de bacalhau seco dependuradas cá fora. Alguma delas são
tão grandes quanto um homem. Na esquina de uma ruam em frente de
todas estas peças de peixe, estava de facto um homem, à
espera que a luz do semáforo mudasse, fumando descontraídamente
um cigarro com a mão na anca. Era magro, tinha um ar cansado e
parecia que precisava de fazer a barba. Talvez isto não me tivesse
impressionado, excepto que ele estava vestido à Pai Natal e as
calças vermelhas descaíam-lhe em redor das anas estreitas
e morenas. Não tinha qualquer pretensão em ser divertido
ou gordo ou simpático e eu admirei-o por isso. Para além
desta imagem, lembro-me dos rostos, que para mim se parecem com os da
minha família, embora não com o meu - a pele morena e os
grandes olhos negros, as caras redondas e as largas maçãs
do rosto dos meus irmãos e irmã com quem cresci.
Dezembro de 1993
Publicado no livro Murmúrios Urgentes
©Fátima Castro Silva/Assírio e Alvim
  
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