Suzanne Vega - a Rainha no Nosso Castelo (Público 28-06-02)


Está de volta a Portugal. É uma daquelas relações privilegiadas que alguns artistas conseguem com a alma lusa. A voz continua límpida, a mulher continua serena. Mesmo se a vida lhe trouxe abalos que não estariam dentro do plano delineado nos dias transparentes e de mãos abertas da sua juventude - divórcio, 11 de Setembro, morte do irmão Tim. Apanhamos Suzanne em trânsito na Alemanha, entre dois espectáculos. Tempo para tentar algumas pistas daquilo que vem à Aula Magna na próxima 4ªfeira. Da música e de quem a faz. Suzanne actua em Lisboa acompanhada por Mike Visceglia (baixo), Doug Yowell (bateria) e Billy M. (guitarra). Este último substitui Gerry Leonard, que fez os espectáculos da digressão no início do ano, e que que vai passar o Verão a tocar com David Bowie, após o que voltará para Vega.

Apenas mais um concerto? Não, pois como Suzanne escreveu em "Crackin'", "It's a one time thing, it just happens a lot".

P-Como se sente actualmente face às audiências, como aborda os concertos?

R-Sinto-me muito contente por ver os espectadores. Há mais jovialidade e intimidade do que antes. Talvez porque sei que as pessoas que me vêm ver gostam realmente da música. Antigamente as pessoas vinham porque ouviam as canções na rádio e queriam ver algo de novo e na moda. Agora é diferente: as pessoas que vêm são as que realmente gostam da música.

P-Que podemos esperar dos concertos a nível de temas que vão ser tocados?

R-É uma grande mistura. Começamos com algumas canções antigas, depois tocamos as canções novas no meio e guardamos os "hits" para o fim, como "Luka" e "Tom's Diner", e normalmente canto "The Queen and the Soldier." Às vezes aceito pedidos da audiência, se querem ouvir determinadas canções. É uma mistura do antigo e do novo.

P-Os pedidos não obrigam a ensaiar um grande número de canções com a banda?

R-Não, porque as canções que são escolhidas/pedidas são as que toco só eu e o Mike [Visceglia, baixista]. Fazemo-las em versão acústica.

P-Os últimos tempos têm sido duros - o 11 de Setembro, a morte do seu irmão...

R-Tem sido estranho. É bom estar fora de Nova Iorque com a banda, para me perder um bocado no meio da música. Em Nova Iorque tem sido um ano muito difícil. Tudo estava ligado. O meu irmão trabalhava no World Trade Center. Foi muito perturbador para toda a gente, continua a ser muito perturbador e mete medo. Por isso penso que há uma espécie de alívio que surge com a música, ao tocá-la ao vivo.

P-Já alguma vez pensou em fazer algo de muito diferente daquilo que habitualmente faz?

R-Sim, às vezes. Há pouco tempo convidaram-me para trabalhar num musical, e aceitei. É sobre a vida e a obra do escritor Hans Christian Andersen. Será um grande desafio para mim, porque é o mundo de fantasia de outra pessoa e algo de há muito tempo atrás, mas mesmo assim muito actual, contemporâneo. Gosto desse mundo, por que tem fantasia mas também há realidade na fantasia. Não é sempre agradável, nem sempre bonito. Estou ansiosa por avançar. Vou trabalhar nisso no Outono, provavelmente começamos em Outubro. É uma encomenda do governo dinamarquês. É realmente um projecto diferente de tudo o que fiz.

P-Tem algum "herói" com quem gostasse de trabalhar?

R-Sim, Butch Vig [produtor e mentor dos Garbage] e o produtor dos Strokes [Gordon Raphael]. Gosto muito do álbum dos Strokes ["Is this it?"], tem um som muito Nova Iorque, muito actual.

©Público /Eurico Monchique

Suzanne Vega (Expresso 29-06-02)

Songs in Red and Grey — ou outra forma de dizer «Songs of Love and Hate» — foi, em Suzanne Vega, algo de verdadeiramente inesperado: um exercício de confessionalismo cuja origem, como ela explicitamente refere em «Soap and Water», é «the cut we call husband and wife». Terreno movediço, o desseúltimo álbum de 2001, onde, dos anos 70 em diante, dezenas de «songwriters» se afundaram em embaraçosas revelações de diários privados, intrigas de alcova e retaliações íntimas, convertendo acanção pop numa variedade particularmente aborrecida da imprensa cor-de-rosa. Suzanne Vega, porém — discípula coheniana por excelência —, sabe evitar a mesquinha identificação dos detalhes para somente reter o traço geral das situações, transformando-as em matéria literária e musical autónoma. E nada poderia contribuir melhor para acabar de vez com o absurdo preconceito acerca do suposto carácter «soft» da sua escrita. Numa tonalidade pop de extracção beatleana clássica (com ressonâncias folk e XTC), as palavras deste diário de combate na guerra dos sexos eram tudo menos doces e não hesitavam em fazer sangue, chegando mesmo à metáfora bélica em «If I Were a Weapon»: «If I am that weapon, I am pointing now at you, so just put down the hostage and we’ll talk it down until we see this through.» Matéria sulfurosa da qual Vega extraiu algumas das suas melhores canções desde 99.9ºF, que agora nos vem apresentar ao vivo.

©João Lisboa/Expresso

Suzanne Vega-a Aula Magna de vermelho e cinza (BLITZ 25-06-2002)

"Luka" em Lisboa

Suzanne Vega está de regresso ao nosso país, para um concerto na Aula Magna, em Lisboa, no próximo dia 3 de Julho. A actuação deverá centrar-se no seu último álbum de originais, «Songs in Red and Gray», lançado em 2001.Valendo-se da herança musical de alguns dos maiores génios da música popular -- como Bob Dylan, Leonard Cohen, Neil Young e Lou Reed --, Suzanne Vega cedo se tornou uma cantora/compositora de referência para a nova geração da folk americana nascida em anos oitenta. Ao dar seguimento à boa tradição de «contadores de histórias» da folk, Vega soube juntar à sua música um inteligente desvio pop, que lhe garantiu logo ao primeiro álbum -- «Suzanne Vega» (1985) --, um fortíssimo culto em todo mundo. Dois anos mais tarde, «Solitude Standing» tornar-se-ia um enorme sucesso comercial, graças, sobretudo, àqueles que ainda hoje serão os seus temas mais ouvidos na rádio, «Luka» e «Tom's Diner».Após o lançamento de «Days of Open Hand» (1990), o casamento com o produtor Mitchell Froom encaminharia Suzanne Vega para uma sonoridade mais experimental, patente nos álbuns «99.9QF.» (1992) e «Nine Objects of Desire» (1996). Ambos se saldaram por uma quebra de popularidade que o recente «Songs in Red and Gray», tenta agora -- numa altura em que Vega se divorciou marital e profissionalmente de Froom -- um regresso acústico que lhe devolva a merecida dimensão do seu culto.

©BLITZ

Suzanne Vega - Exorcismos (Blitz 02-07-2002)


Suzanne Vega fala-nos da Alemanha, em plena digressão do seu último álbum, "Songs In Red And Gray". Nova Iorque e a data que mudou o mundo, 11 de Setembro, são temas inevitáveis, mas a cantora norte-americana falar também do espectáculo que tem marcado para Lisboa. É já amanhã, na Aula Magna.

Não têm sido tempos fáceis para Suzanne Vega. Passou por um divórcio, viu a sua cidade ser atacada a 11 de Setembro, e perdeu o irmão Tim há poucas semanas. O mesmo irmão que trabalhava no World Trade Center e ficou em casa no dia dos ataques por se sentir doente. Ainda assim, arranja forças para tocar ao vivo, talvez porque só através da música seja possível compreender o que está para além da compreensão humana. E para reunir canções dedicadas ao assunto, compostas pelos amigos do Greenwich Village Songwriter's Exchange, grupo que se encontra todas as segundas-feiras para tocar novas canções, compostas na semana anterior. "Vigil" é o nome do disco, cuja vela se mantém acesa em honra dos que directa ou indirectamente, foram vítimas dos ataques.

Como tem corrido esta digressão?
Tem corrido muito bem, especialmente aqui na Europa. Tenho estado em digressão desde Setembro passado e deveremos dar concertos até Setembro deste ano.

Como é que vai ser o espectáculo em Lisboa?
Será uma mistura de canções antigas e temas novos. Vou tocar acompanhada da minha banda, mas também irei tocar algumas músicas sozinha com a minha guitarra. Será uma mistura de tudo, novo, velho, eléctrico e acústico.

Lançou recentemente na internet o álbum "Vigil", uma colecção de canções dedicadas ao 11 de Setembro compostas por vários músicos. O tema que escreveu para o disco, "It Hits Home, fará parte do alinhamento?
Ainda não sei. Se as pessoas pedirem, talvez. Muitos dos jornais têm feito essa pergunta, por isso é possível. Não a tenho tocado aqui na Alemanha porque não tive oportunidade de explicar a canção à imprensa, mas talvez em Portugal a cante.

Como surgiu a ideia de "Vigil"?
Pertenço a um grupo de compositores que se encontram todas as semanas [o Greenwich Village Songwriter's Exchange] há mais de vinte anos. Depois dos ataques de 11 de Setembro, que aconteceram na baixa de Manhattan, perto do sítio onde nos reunimos, muitos desses compositores começaram a escrever sobre o que aconteceu. Ouvi as canções e pensei que eram muito bonitas, pelo que decidi recolhê-las e reuni-las. "Vigil" está apenas disponível na internet, neste momento o disco só pode ser aquirido na Amazon.com. E todas as receitas revertem a favor de instituições de caridade.

Porque é que optou por lançar o album apenas na internet?
Porque não queria ir à minha editora discográfica e dizer "olhem, tenho esta ideia para um pequeno disco". Queria lançá-lo independentemente, sem ter de me explicar e pedir autorização. Estava com medo que editora dissesse que não havia single, que era tudo muito simples, que o disco precisava de mais produção ou algo parecido. Não queria argumentar com eles, apenas queria editar o disco da forma como achava que deveria ser editado.

Foi o Greewich Village Songwriter's Exchange que proporcionou o nascimento de "Vigil". Ainda frequenta as reuniões todas as segundas-feiras?
Sim ainda nos encontramos todas as segundas-feiras. Às vezes quando alguém sai da cidade em digressão, reunimo-nos em casa de outra pessoa, mas ainda nos encontramos todas as semanas.

E tem sempre uma canção pronta a horas para interpretar?
Não (risos). Gostava de dizer que sim, mas isso não acontece. Se componho uma canção por mês estou a ter um ano muito bom. Mas tento.

É um alívio estar longe de Nova Iorque por uns tempos?
Na verdade é. Já estou em digressão há duas semanas e tem sido realmente um alívio estar longe daquela atmosfera. Há um ambiente muito diferente do que havia antes, há muita segurança, muitos militares por toda a cidade, nas auto-estradas, nos túneis, nas pontes... É muito intenso. Apesar de adorar Nova Iorque e de ser a minha casa, é uma boa sensação estar longe.

Os nova-iorquinos temem novos ataques?
Sim, toda a gente fala disso. Ainda mais agora que os jornais disseram que poderiam ocorrer novos atentados. Todos os jornais dizem que pode ser apenas uma questão de tempo. O que quer dizer que todos estão muito ansiosos, mas não há nada que as pessoas possam fazer.

Quando o seu último álbum, "Songs In Red And Gray", foi lançado, afirmou que para falar dos acontecimentos em Nova Iorque era necessário perceber primeiro quais os sentimentos com que as pessoas estavam a lidar. O álbum "Vigil" foi a forma encontrada de compreender e tentar superar o que aconteceu?
É um princípio. Mas não há forma de alguém sentir que consegue ultrapassar isto. Nem sequer passou um ano, e alguns de nós perdemos membros da nossa família. O irmão do meu amigo Jack [Jack Hardy, um dos compositores de "Vigil"] morreu nas torres gémeas e o Jack encontrou-o em 38 bocados. Como é que se consegue superar uma coisa como esta? Irá demorar muito tempo, mas muito mais do que um ano. Mas isto é um começo, é uma forma de tentar pensar nisso, de tentar gerir o que aconteceu. É preciso falar, colocar isto em diálogo, mostrar quais são os sentimentos sobre o assunto.

Considerou alguma vez abandonar a cidade? Ou pelo contrário, sentiu que tinha de ficar?
Neste momento sinto que tenho de ficar. As pessoas têm falado na possibilidade de um novo ataque, e surgiu a hipótese de sair da cidade por uns tempos, de pegar na minha filha e ir para fora durante uns tempos, mas penso que Nova Iorque será sempre a minha casa.

O seu último álbum, "Songs In Red And Gray", marca um certo retorno às raízes acústicas, depois de "99.9ºF" e "Nine Objects Of Desire", álbuns mais experimentais. O que esteve por trás desta mudança de direcção?
Os meus anteriores trabalhos foram marcados pelo meu ex-marido, Mitchell Froom, que era também o meu produtor. Sempre senti que era algo que não iria conseguir manter para sempre. Foi um bom trabalho quando o estávamos a fazer, mas sabia que a dada altura sentiria necessidade de regressar à guitarra. Mas ainda assim tentei manter alguns elementos que eram interessantes e divertidos no trabalho que fizemos juntos. Por isso não é um simples álbum acústico, mantém também alguns aspectos electrónicos que já tinha abordado. Mas a principal razão porque voltei atrás foi a separação do meu marido. Ele foi numa direcção, e eu voltei ao que achava que devia fazer.

Depois de tudo o que aconteceu, como vê os temas de "Songs In Red And Gray"neste momento?
Foi um pouco estranho lançar um álbum tão pessoal logo após os terríveis ataques em Nova Iorque. Fez-me sentir que os meus problemas eram muito diminutos, e que os meus álbuns pessoais eram muito pequenos. De certa forma, senti que o disco saiu na altura errada. "Songs In Red And Gray" saiu a 24 de Setembro, duas semanas depois dos ataques. Isso fez-me desejar que tivesse escrito sobre problemas mais sociais, sobre algo que tivesse um sentimento mais público Mas por outro lado, a vida continua, e as pessoas ainda têm vidas pessoais, apesar destes terríveis problemas sociais. Penso que fiz o melhor que podia.

Foi convidada pelo governo dinamarquês para fazer um musical baseado na vida e obra do escritor Hans Christian Andersen. Como está a encarar esse projecto? Vai ser um grande desafio para si?
Sim, é um grande desafio. Estou neste momento a ler a biografia e os velhos contos de fadas. O que será mais divertido para mim é escrever para a voz de outra pessoa, algo que nunca fiz antes. Sempre escrevi para a minha própria voz, o que é muito limitado. Estou muito entusiasmada com este novo projecto porque é algo inteiramente novo, não tem nada a ver com Nova Iorque ou com a minha vida pessoal. É uma oportunidade fantástica para entrar no mundo de outra pessoa e explorar um pouco de psicologia.

©Rita Guerreiro/Blitz

Suzanne Vega na Aula Magna (Correio da Manhã 03-07-2002)
A cantora norte-americana Suzanne Vega, nome bem conhecido dos portugueses, volta a Portugal para um concerto único, a realizar hoje à noite na Aula Magna, em Lisboa.

Suzanne Vega regressa a palcos portugueses com um novo álbum
Os bilhetes para o espectáculo encontram-se à venda a 20 (plateia) e 25 euros (doutorais) nas agências Abep e Arco-Íris, nas lojas Fnac de Cascais, Chiado e Colombo e na própria Aula Magna.

Referência fundamental da música pop norte-americana dos anos 80 e 90, Suzanne Vega, a inesquecível autora de “Luka”, vem cá mostrar o mais recente trabalho de originais, “Songs in Red and Gray” (2001), definido pela crítica como um álbum em que a artista regressa às origens - a cena “folk” oriunda do bairro nova-iorquino de Greenwich Village.

O livro e as crianças

Compositora inspirada e intérprete de excepção, no final dos anos 80 Suzanne Vega surpreendeu meio mundo ao tomar de assalto os “tops” de vendas com um tema que, pela sua simplicidade, ficou de imediato gravado na memória de todos, o citado “Luka”.

Não sendo as listas dos mais vendidos o objectivo prioritário da carreira de Suzanne Vega, a realidade é que a sua qualidade como autora/compositora levaram ainda aos “tops” temas como “Tom’s Diner”, “Left of The Center” e “Marlene on The Wall”.

Com seis álbuns de originais aos quais se junta a colectânea “Tried and True: The Best of Suzanne Vega”, Suzanne soube sempre gerir com habilidade uma carreira que, ao longo dos anos, tem conseguido fidelizar os seus inúmeros fãs, mantendo o bom nível das composições e da interpretação.

Sobre “Songs in Red and Gray”, Suzanne diz que é, provavelmente, “um álbum mais pessoal dos que os outros”, até porque transmite a sua experiência após a separação, há cerca de três anos, do marido, o produtor Michael Froom.

Antes de “Songs in Red and Gray”, Vega editou em 1999 o livro “The Passionate Eye: The Collected Writing of Suzanne Vega”, e continuou o seu trabalho em prol dos direitos das crianças com a Amnista Internacional e a Casa Alianza.

©Correio da Manhã

Suzanne Vega, a amiga americana (TV Guia 03-07-2002)

Tem feito alguns intervalos demasiado longos para quem precisa das suas canções. Mas como ela sabe dos fãs portugueses aí está ela em Lisboa, Entre Espanha e Itália, para uma incontornável "festa íntima"

Há quase quatro décadas que o cenário , o "habitat" e a matéria-prima desta mulher são Nova Iorque. Daí não haver surpresa no facto de, sendo íntimas e delicadas, pormenorizadas e acutilantes, as suas canções serem também universais e não "microclimáticas". Pessoais mas nada intransmissíveis. Há quase dúzia e meia de anos que as inquietações desta mulher - que por "acidente de percurso" nasceu na Califórnia, a 11 de Julho de 1959 -, de início mais frágeis, nos últimos tempos mais sofridas, com contrponto perfeito em Small Blue Thing, do primeiro álbum, e If I Were A Weapon, do mais recente, nos acompanham de perto.
Hoje, é habitual citar, a respeito da sua escrita, a influência de Leonard Cohen, particularmente sensível em Songs In Red And Gray (o tal álbum de finais de 2001), embora a dama, reconhecida pelo que considera um elogio, se sinta (agora?) mais próxima do que valeria uma versão moderna de Woodie Guthrie. Gosta de apontar outra referência "obscura": a desaparecida Laura Nyro. E a história curiosa, depois do seu passado de estudante de Dança, a que acabou por renunciar por não alcançar o nível de "extroversão e hiper-actividade" (sic) dos seus colegas de curso, é que o concerto que lhe mudou a vida tinha como protagonista um homem de outras áreas chamado Lou Reed.
De resto, se procurássemos definir Suzanne a partir das suas colaborações "extra-curriculares", a tarefa complicar-se-ia desmesuradamente - de Hector Zazou aos Smithreens, de Philip Glass a Joe Jackson e de Mitchel Froom (produtor, ex-marido e pai da sua filha Ruby) aos Smithreens, já foram muitos os que aproveitaram os talentos vocais e autorais desta "princesa" da urbanidade e dos tempos modernos, adepta fervorosa do budismo até certa altura, hoje mais distante da prática, vítima recente de uma tragédia pessoal - a morte de um dos irmãos, Tim, em Abril último.
De resto, Suzanne também se colocou sempre à margem da geração de "singersongwriters" que tanto tem mudado de caras e corações - absurdo seria enclausurá-la, sem algumas reticências, no mesmo barco em que navegaram Tracy Chapman, Michelle Shocked ou Tori Amos. Aqui a história é outra: o mundo ocidental apaixonou-nos pela "fraca figura" de olhos claros e voz doce, nos idos de 1985, graças a canções como Marlene On The Wall ou Straight Lines. Dois anos depois veio o mega-êxito Luka, uma história de violência infantil em formato "pop". Não foi preciso mais nada: apesar de algumas fases de "writer's block" e do tempo dedicado à maternidade, os discos de Vega deixam transparecer uma maturidade crescente, um cuidado com os pormenores e uma sensibilidade que continuam a colocá-la num posto único. E vão seis de originais, mais um "best of" e umas gravações ao vivo que geram um caso singular: escolha o que escolher, o concerto lisboeta só pode ser grande. E comovente. E pleno. Uma festa? Também, mas por favor, cada um faça a sua. Há música que não se "partilha" Como não se partilha uma paixão. É o caso.

©João Gobern/TV Guia

Entrevista com Suzanne Vega: canções de amor e algum ódio (Diário de Notícias 03-07-2002)

Já deve ter respondido a esta pergunta um milhar de vezes, mas é impossível não a fazer: como é que está Nova Iorque actualmente?

Está a recuperar. O que aconteceu foi algo de inimaginável e uma experiência que nunca havíamos vivido. Afectou toda a gente, foi um ano muito difícil, com todos os funerais e com a dor que sentimos por aqueles que desapareceram. De vez em quando ainda acordo, pela manhã, e tenho dificuldades em acreditar que aquilo realmente aconteceu.

É possível retirar algo de positivo dessa imensa tragédia?

Sim. Pelo menos forçou os americanos a olharem para fora da América. Existe o sentimento de que é preciso conhecer outras culturas, sobretudo nas universidades. De certo modo, penso que o 11 de Setembro modificou alguns valores. Antes disso, a América estava demasiado isolada.

Esteve bastante envolvida no projecto "Vigil", um disco com canções sobre o 11 de Setembro.

Eu faço parte de um grupo de compositores [Greenwich Village Songwriter's Exchange] que ficaram profundamente afectados pela tragédia e que escreveram algumas canções. O irmão de um grande amigo [o músico Jack Hardy] morreu no World Trade Center e o meu próprio irmão trabalhava lá, só que nesse dia telefonou a dizer que não podia ir, porque estava doente. Infelizmente, acabou por também morrer, há mês e meio. As mortes que me rodeavam impeliram-me a fazer o álbum Vigil, tanto mais que as canções que escutei eram muito bonitas. Achei que era boa ideia reuni-las, como um pequeno testemunho dos sentimentos das pessoas de Nova Iorque e das reacções à tragédia.

O grupo que citou foi também muito importante na elaboração de "Songs in Red and Grey".

Sim. É um grupo que existe há mais de 25 anos, e conheço-o desde os meus tempos de estudante. Os músicos que dele fazem parte ajudaram-me a escrever as primeiras canções do meu disco de estreia [Suzanne Vega, de 1985], como The Queen and the Soldier.

Mas não se trata de "jam sessions", pois não?

Não, não. Leva-se as nossas canções e as pessoas falam delas. Dizem se a melodia é boa ou não, comentam a estrutura dos acordes, falam da poesia. Depois de assinar o meu primeiro contrato deixei de ir às reuniões, mas eles continuaram. Passaram-se 15 anos e voltei a encontrar Jack, ele perguntou-me como ia a minha escrita de canções, e como naquela altura tinha feito dois temas em quatro anos respondi-lhe que, se mantivesse a média, teria um álbum de 20 em 20 anos (risos). Então, ele convidou-me a regressar ao grupo, para ver se ajudava.

E você foi.

Fui. Demorei algum tempo a habituar-me, a recuperar a coragem, mas a verdade é que recomecei a escrever e fiquei muito contente com as canções. Foi assim que nasceu Songs in Red and Grey.

Concorda que este é o álbum mais pessoal que já fez?

Provavelmente, sim. Tem menos personagens e menos ficção do que os anteriores. É bastante pessoal, está muito centrado no que estava a acontecer na minha vida. Pelo menos três canções são sobre o meu divórcio.

Nunca receou estar a expor-se demasiado?

Penso que não. Sou bastante cuidadosa com aquilo que escrevo, e mesmo quando o tema é a minha vida pessoal não deixo de utilizar metáforas. Não menciono directamente o meu marido [o produtor Mitchell Froom], não falo sobre as nossas brigas nem sobre as razões por que nos separámos. E também não me ponho a chorar em palco. Só procuro conduzir os ouvintes para o meu mundo de metáforas e símbolos.

Precisa sempre de ter uma ligação à realidade para desencadear o seu processo criativo?

Preciso do contacto com a realidade, de facto. De outra forma, as minhas canções seriam uma lenga-lenga de sentenças. É preciso contactar com o mundo exterior, receber o feedback e procurar perceber se aquilo que está a ser dito faz sentido para as outras pessoas. Só dessa forma sentimos o poder de uma canção.

Fala da sua filha num dos temas do novo álbum sobre o divórcio, onde descreve uma situação conflituosa em termos bastante duros. Qual foi a sua reacção?

Primeiro, perguntou-me se era ela o "little kite" [expressão utilizada por Vega no tema Soap and Opera para descrever a filha, hoje com sete anos], e eu disse-lhe que sim. Depois, olhei para ela para ver se a canção a perturbara, por ser demasiado triste, mas ela não pareceu nada infeliz. Pelo contrário, acho que se sentiu bastante orgulhosa por eu a ter incluído no meu álbum. Ficou muito satisfeita consigo própria (risos).

Ela ouve os seus discos?

Sim, ouve os meus discos e assiste aos concertos. Mas não está tão ligada a este disco como a outros que fiz anteriormente. O seu preferido é Nine Objects of Desire.

A sério? Fazia mais sentido preferir os discos mais suaves.

Não, ela prefere as canções mais agressivas. A sua favorita é Blood Makes Noise. Aprendo muito sobre melodia com ela, porque é mais sensível à música do que à letra. Também gosta de Caramel e de Liverpool.

Este ano faz duas décadas que compôs um dos seus maiores êxitos, "Tom's Diner"...

É verdade. É bastante embaraçoso... (risos)

Sentiu o tempo a passar?

Parece que foi ontem.

©João Miguel Tavares /DN

Aula Magna nas nuvens com recital de Suzanne Vega (Diário Digital 04-07-2002)

Um anjo nova-iorquino passou duas horas da sua vida a contar a um público que lhe jurou fidelidade como é que tudo voltou a ser simples e belo nas suas músicas, após cinco anos de crise. Mais de uma década depois de ter deslumbrado Cascais, Suzanne Vega veio na quarta-feira a Lisboa, à Aula Magna, abrir o seu novo book of dreams.

Sentou-se na mesa de Tom´s Diner, esteve no quarto de Marlene on The Wall, deliciou-se com Caramel e recordou Liverpool. Ainda teve tempo para mostrar a sua costela portuguesa em Harbor Song, do seu último disco «Songs in Red and Grey», herdeiro do tema Ironbound, onde falava de mulheres portuguesas de Newark, nos EUA.
Durante duas horas Suzanne Vega, 43 anos, mostrou que está de volta ao bons velhos tempos de «Suzanne Vega» e «Solitude Standing», os dois primeiros discos, que se distinguiam pelas melodias simples e acústicas e letras carregadas de mensagens sociais e de amores. O tema Luka, o grande hit mundial de Vega e que fazia parte de «Solitude Standing», recebeu diversas distinções de organizações que combatem o abuso de crianças.

Suzanne abriu o concerto de duas horas com Marlene on The Wall. O público rendeu-lhe a devida homenagem e a sala tornou-se acolhedora. A cantora e songwriter, que não esconde a sua admiração por Leonard Cohen e Lou Reed, acompanhada por mais três elementos, misturou temas do novo albúm e títulos mais antigos e chegou mesmo a cantar músicas a pedido do público, como Rosemary e The Queen and the Soldier.

A interpretação de Tom´s Diner, feita sem instrumentos, apenas com a voz e a participação do público, foi um dos momentos altos da noite. Outra altura sublime foi a interpretação de Maggie May, do último disco.

Numa homenagem às vítimas de 11 de Setembro, acontecimento que a tocou profundamente, Vega cantou um tema acústico que faz parte do projecto Vigil, disponível apenas na internet e cujas receitas revertem para os familiares das vítimas dos atentados.

Bem disposta, comunicativa, Vega contou histórias, disse muitas vezes obrigado e despediu-se em beleza de Lisboa. Depois de cinco anos atribulados – separação do marido, morte do irmão e 11 de Setembro – a cantora e compositora, que nasceu em Santa Monica, na California, mas cresceu num bairro hispânico de Nova Iorque, parece ter ganho um novo fôlego.

©Hermínio Santos /Diário Digital

SUZANNE VEGA FEZ SONHAR NA AULA MAGNA (Correio da Manhã 05-07-2002)

Tudo começou com uma história, uma longa história, sobre crianças, memórias de infância e Marlene Dietrich à mistura.

"Aqui há tempos tive que cantar para um grupo de miúdos em Nova Iorque entre os oito e os treze anos. Não foi fácil porque as crianças distraem-se facilmente. Foi então que lhes perguntei se tinham posters no quarto. Disseram-me que sim e falaram-me na Britney Spears e em nomes que nunca tinha ouvido. Depois disse-lhes para imaginarem esses posters com vida, sempre a olhar para eles e foi nessa altura que se fez silêncio na sala", contou, entre risos, Suzanne Vega, antes de interpretar "Marlene on The Wall", um daqueles "velhinhos" temas que marcaram o seu espectáculo anteontem à noite na Aula Magna, em Lisboa. "É que quando era miúda, o único poster que tinha no quarto era o de Marlene Dietrich", explicou.

De regresso a Portugal (o primeiro espectáculo aconteceu aqui há uns bons anos em Cascais) Suzanne Vega “mostrou-se como veio ao mundo”, com um enorme sentido de comunicação. E, de resto, foi isso mesmo que terá ficado na retina de todos quantos se deslocaram à Aula Magna.

Ao longo de duas horas, a Cantora de Santa Monica falou de um tal pintor de Liverpool por quem se apaixou no passado, de um senhor chamado Leonard Cohen que a levou a cantar, interpretou alguns dos temas que todos esperavam ouvir e saiu em braços.

É verdade que o seu espectáculo teve mais de emotivo do que de bonito, teve mais de eficaz do que de deslumbrante mas, acima de tudo, marcou. Marcou pela voz sempre inconfundível, pelas canções que já fazem parte do imaginário de todos e pela sobriedade, uma sobriedade que chegou a roçar a sonolência mas que teve o mérito de ter levado o público às nuvens. Difícil, foi mesmo descer lá de cima.

©Miguel Azevedo/Correio da Manhã

Boas canções com arranjos duvidosos (Diário de Notícias 05-07-2002)

Ensina-nos a sabedoria popular que mais vale só que mal acompanhado, e o provérbio aplica-se ao que se passou na noite de quarta-feira, na Aula Magna, durante o concerto de Suzanne Vega. A cantora surgiu acompanhada de guitarra, baixo e bateria e podia ter poupado no ordenado dos músicos: os seus temas dão-se bastante melhor na solidão da guitarra ou, no máximo, na companhia do baixo de Mike Visceglia, que é parceiro de há muito. O resto da trupe, independentemente da sua competência como instrumentistas, serviu mais para escurecer as canções de Vega com arranjos banalíssimos - que, aliás, nunca foram a sua especialidade -, do que para sublinhar o recorte das suas melodias.

Não quero com isto dizer que a apresentação de Songs in Red and Gray tenha sido um espectáculo desaconselhável. Longe disso: Vega voltou a demonstrar ser uma escritora de canções de excepcional talento, e ao optar por um concerto que passava por toda a sua carreira, desde Marlene on the Wall até ao recente Last Year's Troubles, mostrou que não perdeu o jeito desde que, em 1985, lançou o seu primeiro disco.

Para além do prazer que foi ouvir novamente Gypsy ou Tom's Diner (meio destruído pela incapacidade nacional em bater palmas nos tempos certos), os espectadores foram ainda brindados com uma boa quantidade de histórias sobre a vida de Suzanne Vega. É dessa matéria que nascem as suas melhores canções e foram esses os melhores momentos da noite na Aula Magna.

©João Miguel Tavares /DN

Suzanne Vega:à flor da pele (Rádio Comercial Online 04-07-2002)

Ele adorava Leonard Cohen, eu adorava Leonard Cohen, era óbvio que tínhamos de nos apaixonar' - assim explicou Suzanne Vega, ontem à noite, o romance de Verão que lhe inspirou duas canções. 'Apesar de ele não merecer tanto', completou, em jeito de desabafo jovial. E foi com a mesma naturalidade que, em tempos, terá unido a cantora a um pintor de Liverpool que o público da Aula Magna acolheu um espectáculo de mais de duas horas, sensatamente equilibradas.
Antes de se vislumbrar, em palco, qualquer tipo de artista, já o auditório estava, de resto, em delírio. Roadies, técnicos e objectos inanimados tiveram direito a aplausos entusiastas, até que Suzanne Vega, vestida de negro, aparece a justificar a ausência de Bob Hillman, cantautor que devia ter feito a primeira parte do espectáculo mas, por motivos pouco claros, ficou em Madrid.
'Agora, vou eu fazer dele', brincou a norte-americana, numa voz ruiva e quente que não a traiu em ponto algum da noite. E foi com o trio atacante de 'Marlene On The Wall', 'Small Blue Thing' e 'Caramel', clássicos de uma senhora carreira, que tiveram início as sedutoras hostilidades. Quer acompanhada por um discreto trio de bateria, baixo e guitarra, quer apenas de guitarra acústica ao colo, Suzanne Vega conquistou o público nacional da mesma forma que, há pouco, terá atraído a atenção de uma plateia de crianças, nos EUA.
'São espectadores muito difíceis, porque não pagaram para nos ver e, se não gostam, poêm-se a brincar ou vão-se embora', confessou, partilhando então as histórias inventadas em redor de cada canção para garantir que os petizes não arredassem pé. À semelhança das crianças dos States, o recheio humano da Aula Magna, tudo menos menor de idade, estava embalado.
As fontes de inspiração de Miss Vega dariam, por si só, direito a tese ou, no mínimo, alguma especulação: do mais recente 'Songs In Red And Gray', a artista escolheu 'Solitaire', música sobre jogar paciências à noite e momento para o público português mostrar como as palmas são o seu instrumento favorito. Pouco depois, entoou, olhando para a letra escrita num papel, a canção escrita por um amigo depois de perder um irmão, no 11 de Setembro - arrepiante mas, ainda assim, mais doce que 'The Queen And The Soldier', regresso taciturno ao primeiro e aplaudido álbum, de 1985.
Antes dos encores, Suzanne Vega quis ainda homenagear a equipa que a apoia em digressão e a babysitter da filha, presenteando, então, os presentes com o inevitável 'Luka' e um 'Tom's Diner' a capella, com falso fim e alegre regresso.
Nas horas extraordinárias, e em regime discos pedidos, ouviram-se ainda, até depois da meia-noite, a nova 'Last Year's Troubles' e a velhinha 'Undertow' - momentos que, mercê de uma notável presença (também de espírito), a cantora soube uniformizar e tornar especiais.
Numa altura em que a etiqueta singer/songwriter é colada em artistas de valor sortido, fica o reconhecimento, pelo menos por parte daqueles que, ontem, pagaram para ver Suzanne Vega, de uma grande compositora e intérprete. No final, é quase certo que todos desejaram ter uma Mãe com aquelas canções - de embalar e abalar.

©Rádio Comercial

Suzanne Vega, a poetiza de Nova Iorque (Correio da Manhã 12-07-2002)
Dez anos depois da sua última visita a Portugal (SIC), Suzanne Vega é uma pessoa diferente. Tem uma filha, a Ruby, divorciou-se do marido, perdeu o irmão e vive numa Nova Iorque traumatizada pelo 11 de Setembro
Magazine Domingo - Aprendeu a tocar guitarra aos 11 anos. As suas inspirações de juventude eram Bob Dylan, Joan Baez e Leonard Cohen. Como descobriu estes artistas?

Suzanne Vega - Não éramos propriamente a família tradicional norte-americana. O meu pai era natural de Porto Rico e defendia a independência do seu país face aos Estados Unidos. Lá em casa, discutíamos política a toda a hora, falávamos sobre a cultura de outros povos e ouvíamos esses artistas e as suas canções de intervenção. As letras de Dylan e Baez impressionavam-me e mexiam comigo. Faziam-me pensar. Quanto ao Cohen, descobri-o sozinha, mais tarde, através de discos de amigas da minha mãe. Houve duas músicas, Suzanne, e Dress Rehearsal Rag, que me inspiraram profundamente. Fui descobrindo artistas que pertenciam ao mundo dos meus pais, e transportei-os para o meu espaço, mesmo sabendo que este tipo de música de cariz mais revolucionário, já não fazia sentido para as pessoas da minha geração, que nos anos setenta preferiam ouvir bandas mais hard rock como os Aerosmith, ou glam rock como David Bowie. Eu preferia a poesia do Bob Dylan.

M.D. - Mas hoje, um dos grupos preferidos são os The Strokes, que têm mais rebeldia rocker do que a poesia dos anos sessenta.

S.V. - Ninguém pode dizer que eles sejam grandes poetas. Mas neste momento sinto-me algo agastada e as canções deles falam-me um pouco desse estado de espírito conturbado. Essencialmente, gosto da energia das músicas dos The Strokes. A sua maneira de estar lembra-me Nova Iorque no início dos anos oitenta, quando iniciei a minha carreira. Oiço o disco deles, Is This It, várias vezes ao dia e cada vez que o faço nasce-me a vontade de compor mais canções.

M.D. - Nesses anos, a Suzanne Vega era a grande promessa dos artistas nova-iorquinos, tal como hoje são os The Strokes. Quais são as memórias desse período?

S.V. - Nessa altura, apenas contava com a minha ambição e talento. Escrevia, inspirava-me e debatia ideias o mais que podia com outros artistas. Saía à noite com bastante frequência e conhecia toda a cena underground. Em 1984, assinei o meu primeiro contrato discográfico. E para minha grande surpresa, o meu primeiro disco, Suzanne Vega, teve grande sucesso. E digo surpresa porque durante vários anos fui rejeitada por editoras e donos de clubes de música. Eu ia acompanhada da minha guitarra acústica, e mandavam-me embora porque achavam-me demasiado tímida e não tinha a pose de estrela de rock.

M.D. - E as suas músicas tornaram-se num êxito planetário.

S.V. - O mais engraçado é que eu já cantava as mesmas canções há anos e ninguém lhes ligava nenhuma. De repente, e sem perceber porquê, falava-se não só das minhas canções, mas também de coisas estranhas como a minha imagem, o que é que eu vestia, se representava o sexo feminino no mundo da pop music, etc. Era bizarro.

M.D. - Não fica aborrecida por ainda hoje lhe fazerem perguntas sobre Luka, a sua canção com mais sucesso?

S.V. - Apesar de de me ter tornado conhecida nos anos 80, não quero dizer que me tivesse transformado numa Belinda Carlisle ou Kylie Minogue. A minha carreira estava mais ligada a uma música que falava de uma questão social, que era o abuso de crianças. Eu tinha um tipo diferente de celebridade. Luka não era apenas mais uma dessas canções de amor e não fico chateada quando me perguntam por esse hit porque a canção significa muito para mim e para muitas outras pessoas.

M.D. - Continua a ser uma pessoa tímida?

S.V. - De certo modo. Hoje é para mim mais fácil subir para cima de um palco. Sou acima de tudo uma artista e pagam-me para cantar. Não posso estar a um canto, envergonhada quando sei que centenas de pessoas pagaram para assisitr a um show meu. Mas não me considero uma pessoa extrovertida. Às vezes sinto-me stressada por ter que ir a uma festa cheia de gente.

M.D. - Em 1990, os DNA fizeram um remix da sua canção, Tom’s Dinner. A música electrónica era então para si uma novidade?

S.V. - Quando essa música apareceu, eu já andava a descobrir as novas tecnologias, como os samplers. Mas estas experiências electrónicas não eram tão arrojadas como essa mistura dos DNA, nem tinham uma vertente tão dançavel. Eram mais do género daquilo que o Peter Gabriel ou Kate Bush andavam a fazer na altura. Mas uma coisa é certa: os DNA tornaram Tom’s Dinner bastante popular.

M.D. - Mas confesse, quando ouviu aquelas batidas sobre a sua voz, não ficou nem um bocadinho chocada?

S.V. - Fez-me rir. Achei a versão muito engraçada. Eles não mudaram a canção, nem as linhas melódicas, ou sequer a minha voz. A minha editora já não achou tanta piada e até pensou em processar os rapazes. Mas era óbvio, para quem ouvisse a canção, que eles não eram de maneira nenhuma pessoas com dinheiro. Porquê processá-los? Eles não tinham nada! O sucesso de Luka deu--me grande confiança para lidar com aquela nova experiência, apesar de alguns fãs meus terem ficado algo chocados.

M.D. - Actualmente, Nova Iorque continua a ser uma cidade inspiradora?

S.V. - Sim, mas de uma maneira diferente. Hoje sou mãe de uma menina chamada Ruby e não quero ser um desses pais ausentes. Já não vou a todas as festas, nem fumo ou bebo demais. Mas Nova Iorque continua a ser uma terra cheia de encanto, embora os atentados terroristas de 11 de Setembro tenham ensombrado a big apple. Toda a gente conhece alguém que morreu nas torres gémeas. Uma parte de mim tenta negar o que aconteceu. Mas é impossível. Basta abrir a janela ou ir à baixa, que se assiste àquele cenário estranho. Há demasiada tensão no ar. Todos os dias se fala na iminência de novos atentados. Mas tenho de reconhecer que há outros sítios no mundo bem piores.

M.D. - Os valores dos anos sessenta, como paz e amor, ainda fazem sentido?

S.V. - É uma pergunta difícil. Sempre fui contra a guerra. Mas hoje as coisas apresentam-se muito complexas. Por exemplo, os atentados criminosos a 11 de setembro quase mataram o meu irmão. Ele trabalhava no World Trade Center e só não estava lá nesse dia porque se encontrava com a saúde fragilizada (ele morreu há dois meses). Não vamos reagir só porque defendemos a paz? A guerra pode não ser a solução mas não podemos ficar de braços cruzados. Não sei. Sinto-me dividida.

M.D. - Está ligada a grandes causas como a Amnistia Internacional, a defesa dos direitos das crianças. O que tem feito ultimamente neste campo?

S.V. - Actualmente também trabalho com outra instituição de caridade em Nova Iorque chamada Windows of Hope (Janelas de Esperança). Desde o 11 de Setembro que tenho tentado angariar fundos para ajudar as vítimas dos atentados.

M.D. - Quase um ano depois da catástrofe, quais foram as grandes mudanças nos Estados Unidos?

S.V. - Muitas. Antes de mais, a América sente-se menos segura do que antes dos atentados. Nota-se um reforço da segurança para onde quer que se viaje, seja no interior do país ou nos aeroportos. De um dia para o outro, qualquer objecto aparentemente inofensivo transformou-se numa possível arma terrorista. Os cidadãos norte-americanos estão preocupados em tentar perceber as causas dos ataques terroristas. Questionam-se o que está mal na nossa sociedade e qual o papel que os EUA têm no mundo. Há sem dúvida, uma maior introspecção do que antes. Se houve algo de positivo com o 11 de Setembro, é que agora todos queremos saber um pouco mais sobre outras culturas e países.

M.D. - Até a esse dia fatídico, os americanos em geral, não seriam pessoas demasiado egoístas?

S.V. - Talvez. Muitos apenas pensavam em dinheiro, só se interessavam em fazer compras. O 11 de Setembro mudou muitas das prioridades dessas pessoas.

M.D. - Concorda com as políticas de George W. Bush em reforçar a segurança interna a todo o custo com o pretexto do país não sofrer mais atentados?

S.V. - Eu votei em Al Gore. Mas se Bush é agora tão popular, muito se deve ao facto de existir um sentimento especial de união entre os americanos. Temos estado a seguir com muita atenção o que ele tem feito em prol do país e mesmo que não concorde com todas as suas medidas não posso deixar de me sentir tentada em apoia-lo neste momento tão difícil.

M.D. - Para uma artista tão interventiva como Suzanne Vega, é fácil enviar uma mensagem de esperança ao seu povo?

S.V. - Mais ou menos. Gostava de pensar que isso fosse verdade. A minha resposta foi a de reunir canções de diferentes artistas, numa colectânea intitulada Vigil. O projecto é muito independente e todo o dinheiro arrecadado reverte a favor da instituição de caridade Windows of Hope. Esta tem sido a maneira de gastar as minhas energias.

M.D. - É religiosa?

S.V. - Não era religiosa até atingir os 16 anos, quando me tornei budista. Embora acredite na religião confesso que não sou muito praticante.

M.D. - No último disco, Songs In Red and Grey, nota-se um tom mais intimista do que nos anteriores. Há dor, perda e alguma raiva no ar.

S.V. - Nalgumas canções expus um pouco da minha vida pessoal. Quando escrevi as músicas, tinha passado por um processo de divórcio [o seu ex-marido é o produtor Mitchell Froom]. Estava zangada. Mas tentei ser justa e ao escrever as canções não embarquei naquela lógica de eu ser a boazinha e ele o mau da fita.

M.D. - Qual o significado do título do disco, Songs in Red and Gray?

S.V. - A paixão associada ao vermelho (Red) opõem-se diametralmente ao intelecto que está mais relacionado com o cinzento (Gray). Há diferenças entre ser-se novo e rebelde e mais velho e maduro.

M.D. - Conhece algo sobre a música portuguesa?

S.V. - Não sobre a música pop, mas tenho informações sobre fado e Amália Rodrigues. Pouco mais.

©Hugo Franco/Correio da Manhã