Suzanne Vega (TV GUIA Dezembro de 1990)

Foi numa noite de sexta-feira em Cascais. Num pavilhão frio e cheio a três quartos da sua lotação onde, à habitual fauna ainda com o ouvido nos sons "heavy metal" do último concerto, se juntaram os outros, turba mais serena à espera de algumas histórias cantadas em tom de "rock" filtrado pela guitarra acústica. Para uns, Suzanne Vega não passou de uma silhueta franzina em cima de um palco meio vazio. Para os demais, a menina de preto iluminou com a voz e as canções o Dramático de Cascais. Pena foi que entre uns e outros, o vazio se tivesse feito sentir numa noite cheia de correntes de ar.

Se calhar a culpa não foi nem de uns nem de outros. Também não sabemos ao certo se terá pesado na balança o discurso (apelativo quanto baste, diga-se), daquele crítico musical que escrevia nas páginas de um semanário que tencionava ir ver a Suzanne Vega a Cascais em silêncio, com respeito e à espera de se emocionar com histórias que já conhecia, mas que ainda não lhe tinham sido cantadas cara a cara. A poucas horas do concerto, fizemos nossas as suas palavras e esperanças.
Se o respeito e a emoção não sugerem aqui matéria para evocar enfados vários, remetendo para os sentimentos de cada uma das cerca de sete mil pessoas presentes em Cascais, já o silêncio é outra conversa. Porque foi num ambiente de praça pública (ou, se juntarmos os copos às palavras, de discoteca na berra), que Suzanne Vega deve ter dado por si a cantar pequenas histórias que enchem o livro do seu repertório.
Ao palco por onde, numa ainda mais fria e desencantada primeira parte do espectáculo, tinha passado a portuguesa Pilar e a sua guitarra, trouxe apesar de tudo Suzanne Vega a sabedoria que atravessa as suas composições. Ao saber recolhido das ruas de Nova Iorque (uma cidade muito grande e muito, muito suja, como contou Suzanne), juntou a cantora uma forte presença física sublinhada por um expressivo jogo de luzes.

Histórias de Nova Iorque

Com ela partilharam o palco os músicos que ajudaram a dar forma ao seu terceiro e mais recente album (Days Of Open Hand), e que a têm acompanhado em digressão por outras paragens. Em número são quatro, a saber: Anton Sanko, o homem das teclas, dos arranjos, da produção do último trabalho discográfico e, noutra ordem de razões mais afectivas, o homem de Suzanne; Michael Visceglia, baixista empenhado; Marc Schulman, guitarrista discreto; e Frank Vilardi, virtuoso tão à vontade na bateria clássica como nas percurssões mais ligadas ao som da mão África.
Como acontecera noutros concertos de que nos têm chegado ecos recentes, o tom inicial foi dado por Days Of Open Hand. Só depois de ter cantado de uma assentada dois temas deste álbum (Rusted Pipe e Tired Of Sleeping), é que Suzanne Vega se postou naquela atitude de quem tem uma história para contar. Primeiro foram as palavras de agradecimento, os thank you da ordem seguidos por um muito obrigado quase sem sotaque. Depois a propósito de uma "velha" cantiga chamada Straight Lines, que foi buscar ao primeiríssimo Suzanne Vega, foi já a voz da narradora que lhe tomou conta do discurso.
Porque a menina Vega sabe muito. Mais do que o deixa ver a imagem de menina tímida que dela dão as fotografias tiradas em pose de quem não quer dar a cara. Mais, muito mais do que o que apregoam os que vêem nela uma cantora de baladas escondidas atrás de uma guitarra acústica.
O que Suzanne Vega sabe, dizem-no as canções que canta. Di-lo também o corpo, tornado ainda mais franzino pela sobreposição de diversas texturas de preto. Se a guitarra lhe serve de esconderijo nos momentos de maior intimismo - como aconteceu quando cantou Ironbound/Fancy Poultry a tal canção que fala das portuguese women - , outras alturas há em que a Vega assume sem complexos a sua condição de estrela com brilho próprio e desafia as regras do jogo.
Espectaculares, mais por contraste com a noção clássica de espectáculo do que por qualquer artifício de encenação, foram aqueles longos minuros em que Suzanne Vega, sentada num banco alto, e fazendo-se acompanhar apenas de Sanko (guitarra), Schulman (ukelele), e Vilardi (congos) desfiou o reportório mais próximo do folk: Some Journey, Room of the Top, Freeze Tag e The Queen and the Soldier.
Ao tom de evocação não faltaram também outras canções obrigatórias, ainda que de diferentes escolas rítmicas. Ouviu-se Neighborhood Girls, só com acompanhamento de guitarra acústica; Men in a War e Left of Centre, em formato mais electrizante; Luka, Solitude Standing e Book of Dreams, estas desde os primeiros acordes acompanhadas pelo público num coro a várias vozes. Ouviu-se ainda Tom's Diner e Pilgrimage, tão bem cantadas como da primeira vez. E, ainda, Gypsy, canção-surpresa, revelada entre todas as outras de reconhecimento quase imediato, que serviu para Suzanne Vega nos transportar numa viagem às cantigas de roda da sua infância nova-iorquina.
Posto tudo isto, mais o que se viu, ficou por dizer, Suzanne Vega agradeceu, disse adeus e voltou ao palco por mais duas vezes para cantar três canções e repetir as despedidas. E prometeu que voltaria um dia destes. Que os deuses a tragam, de volta a um espaço físico onde as suas canções não sejam devolvidas pelo eco das conversas.

©Maria João Lourenço/TV Guia

 
O prazer de olhar para trás  (Expresso 03-10-1998)
Entrevista com Suzanne Vega, a propósito do lançamento de uma retrospectiva da sua obra

SUZANNE Vega gosta verdadeiramente de compilações, «greatest hits», «best of», retrospectivas. Peça-se-lhe o seu «top ten» privativo e, entre os Velvet Underground, Laura Nyro ou Stan Getz com Astrud Gilberto, lá aparecerão, inevitavelmente, os «greatest hits» de Leonard Cohen, Bob Dylan, Elvis Costello ou dos Pretenders.
Por isso, não é de admirar que, mesmo que isso faça parte da rotina da indústria discográfica, ela tenha visto com muito bons olhos a publicação da sua própria retrospectiva, Tried & True – The Best of Suzanne Vega. E que, também ao contrário do que é habitual, isso tenha constituído óptimo pretexto para uma conversa.

EXPRESSO - Quando, há cerca de um ano, entrevistei Leonard Cohen a propósito do Greatest Hits dele, concordámos que, como nunca há muito a dizer acerca de compilações, talvez fosse mais interessante conversarmos acerca do dia-a-dia dele no mosteiro zen de Mount Baldy e das razões que o levaram até lá. Segundo diz no «press release», gosta muito de compilações. Talvez pudesse começar por me explicar porque as aprecia tanto?

SUZANNE VEGA - Provavelmente porque tenho uma certa tendência reflexiva, estou sempre a pensar no passado e à procura do sentido que ele faz. Leio muitos diários antigos, livros de História, sou esse tipo de pessoa. Gosto muito dos «best of» e das compilações de outros músicos. Na verdade, a do Leonard Cohen é uma das minhas favoritas.

EXP. - A propósito, esta semana é o aniversário dele.

S.V. - A sério? Qual é o signo dele? Virgem?

EXP. - Não, Balança.

S.V. - Tem razão, é como a minha irmã.

EXP. - A escolha das canções para Tried & True foi de acordo com as suas preferências ou em função da maior popularidade junto do público?

S.V. - Um pouco das duas coisas. Tanto se incluem algumas que a editora desejava, como outras que escolhi e outras que sei que o publico prefere, como «Gipsy» e «The Queen And The Soldier».

EXP. - Reparei que o álbum de que retirou maior número de canções (quatro) foi 99.9ºF que, por acaso, por esta altura também é o meu preferido. Também é o seu?

S.V. - É verdade, oiço-o bastante mais vezes do que qualquer dos outros. Quando o gravei senti que continha um espírito muito positivo e representava, de facto, aquilo que eu esperava vir, um dia, a ser capaz de fazer: um álbum onde existia liberdade musical mas que não era tão frágil, tão «clean» e cristalino como os anteriores.



EXP. - Antes desta entrevista, andei à procura na Internet de tópicos interessantes para conversarmos. E descobri uma enorme lista de perguntas de fãs seus de que não tive tempo para encontrar as respostas. Uma das mais curiosas era de alguém que lhe perguntava se as suas canções a emocionam da mesma forma que nos emocionam a nós ou se, a partir de certa altura, se lhe tornam demasiado familiares e perde o interesse nelas?

S.V. - Eu diria que algumas ainda continuam a viver sob a minha pele, ainda me emocionam quando as canto. As que não o fazem, deixo de as cantar, abandono-as. Mas outras, como «Caramel», «The Queen And The Soldier» ou mesmo «Luka», continuam a emocionar-me. «Tom's Diner», por exemplo, é um caso diferente: canto-a para divertir o público, para o pôr a cantar comigo.

EXP. - Outra pessoa perguntava se, agora que é mãe, nunca pensou em aplicar o seu talento de cantora e contadora de histórias na gravação de um disco de canções infantis ou na escrita de histórias para crianças.

S.V. - (risos) Não, embora reconheça que a minha voz poderia ser muito apropriada para cantar canções infantis. Mas prefiro não o fazer porque me parece que a maioria das canções infantis é demasiado sentimental. E recordo-me muito bem de que, quando era criança, a infância não me pareceu uma experiência nada sentimental. Pode ter sido uma coisa divertida, estranha ou frustrante mas não foi, de certeza, aquele universo adocicado que as pessoas imaginam. Se tivesse o tempo e a inclinação para isso, talvez fosse o género de coisa que pudesse fazer. Por agora, cuidar da minha filha Ruby já me ocupa o suficiente.

EXP. - Até, talvez, pudesse ser uma ajuda...

S.V. - Na verdade já gravei uma cassete para a Ruby em que cantamos as duas e que ela tem ouvido.

EXP. - Outra pergunta «online» de um fã, muito concisa e directa: «Quem é Deus para si?» Pode ser a nossa pergunta-do-mosteiro-zen-em-Mount-Baldy.

S.V. - (risos) Dessa não me lembro... «Quem» parece-me a pergunta errada. Quando era miúda, lembro-me de ter tido uma conversa com uma amiga em que chegámos à conclusão de que Deus era a totalidade da vida. Compreender que Deus existia na Natureza era uma ideia que me confortava. E penso que ainda acredito nessa forma de ver segundo a qual é aí que se encontram as coisas que nos curam, com que estabelecemos relações e onde descobrimos a ordem que preside ao seu desenvolvimento.

EXP. - Mantém a sua relação com a filosofia budista?

S.V. - Ainda pratico alguns rituais, de vez em quando, mas já não tanto como dantes quando orava duas vezes por dia e entoava cânticos. Mas mantenho as minhas convicções.

EXP. - Por último, alguém confessava que lhe devia o que nenhum professor de inglês tinha conseguido: fazê-lo dedicar-se à escrita. Quando gravou o primeiro álbum, alguma vez pensou que uma coisa dessas pudesse vir a suceder?

S.V. - Não, mas claro que desejava afectar as pessoas de alguma forma, fazer com que reconhecessem alguma parcela da sua vida nas canções que eu escrevia. O que sempre me motivou foi esse desejo de estabelecer uma relação e de revelar às pessoas pequenos detalhes das suas vidas em que, muitas vezes, elas se esquecem de reparar.

EXP. - Olhando para trás, ao fim destes anos, o que é que, para si, se tornou mais fácil ou se tornou menos interessante?

S.V. - Escrever canções continua a ser uma coisa muito misteriosa que parece visitar-me de vez em quando. Tornou-se um pouco mais difícil porque não tenho tanto tempo como dantes. Mas cantar passou a ser mais fácil. Encontrar o caminho que leva a uma canção ou decidir o que é realmente urgente para justificar uma canção, isso, é que se tornou realmente complicado.

EXP. - O que é, então, realmente urgente?

S.V. - Ainda não sei... Mas sei que existem dois desafios: gostava de ser capaz de escrever uma canção abertamente política acerca da questão do poder no mundo; e outro decorre de sentir que nunca escrevi uma autêntica e verdadeira canção de amor. São as duas coisas que sinto que terei de fazer antes de deixar de escrever.

© João Lisboa /Expresso

Armas de guerra (Expresso 22-09-2001)
 «Songs In Red And Grey», de Suzanne Vega: a escola de Leonard Cohen no seu melhor
Canções em tons de vermelho e cinzento. Sangue e nevoeiro. Dor e melancolia. Será apenas outra forma de dizer «songs of love and hate»? Uma vez que se trata de Suzanne Vega - discípula coheniana por excelência -, até será muito provável. Mas, acima de tudo, convém ver no sucessor de Nine Objects Of Desire algo de muito raro e verdadeiramente inesperado em Suzanne: um exercício de verdadeiro confessionalismo que, em repetidos momentos, não deixa a menor dúvida de onde provém. A saber, como ela explicitamente refere em «Soap And Water», a ferida cuja origem é «the cut we call husband and wife».

É, indiscutivelmente, um terreno perigoso, no qual, dos anos 70 em diante, dezenas de «songwriters» se atolaram em embaraçosas revelações de diários privados (e que privados deveriam ter permanecido), intrigas de alcova e retaliações íntimas, convertendo a canção pop numa variedade particularmente aborrecida da imprensa cor-de-rosa. A escola de Suzanne Vega, porém, é outra. Justamente o «curso» de transfiguração do individual em universal ministrado por Leonard Cohen, onde aprendeu a evitar a mesquinha identificação dos detalhes para reter apenas o traço geral das situações e circunstâncias capazes de se transformar em matéria literária e musical autónoma. Daí que não seja absolutamente despropositado olhar para Songs In Red And Grey como o segundo capítulo discográfico de 2001 no registo «amor e ódio» (mais ódio do que amor...) a seguir a Bachelor nº 2 de Aimee Mann e em nada inferior a este.

Na verdade, nada melhor do que este álbum poderia contribuir para demolir de vez o absurdo preconceito acerca do suposto carácter «soft» da escrita de Suzanne Vega. Se (curiosamente, tal como em Aimee Mann), a tonalidade musical dominante é a de uma pop de extracção beatleana clássica - mas aqui com simultâneas «overtones» de XTC e da folk tradicional -, as palavras deste diário de combate na guerra dos sexos são tudo menos doces. Desde «consider me a widow, boys, and I will tell you why, it's not the man but it's the marriage that was drowned» (de «Widow's Walk») ao deliciosamente folky e desafiador «Maggie May» («I'll never be your Maggie May, the one you loved and left behind, the face you see in light of day and then you cast away, that isn't me in that bed you'll find») passando pelo quase insolente «Machine Ballerina» («Am I an afternoon's pastime, a thing on a string to be thrown and retrieved?»), Suzanne Vega não hesita em fazer sangue chegando mesmo à metáfora bélica em «If I Were A Weapon»: «If I am that weapon, I am pointing now at you, so just put down the hostage and we'll talk it down until we see this through.»

A matéria é verdadeiramente sulfurosa e dela Vega extrai algumas das suas melhores canções desde 99.9F0, como «Soap And Water», «Penitent», «Maggie May», «Harbor Song», a extraordinária «Song In Red And Grey» ou a versão final para «St. Clare» de Jack Hardy.

Vivem-se tempos de guerra, sem dúvida, e é bom que se saiba que as «personal politics» não são menos sangrentas do que as outras...

©J.L. / Expresso

Back to basics (3/5) (Diário de Notícias - Suplemento DN Mais 22-09-2001)

Em "Songs in Red and Gray" Suzanne Vega regressa às velhas canções artesanais, que deixara para trás a partir de "99.9ºF". Pelo que se vê, não perdeu o jeito, mesmo que este não seja um álnum tão inspirado quaanto os seus admiradores desejariam.

Suzanne Vega viveu tempos de sucesso artístico quando o tema "Luka" impulsionou o álbum "Solitude Standing" (1987) para o estrelato, e viveu tempos de sucesso amoroso quando se casou com Mitchell Froom, produtor dos seus dois últimos álbuns, "99.9ºF" (1992) e "Nine Objects of Desire" (1996). Actualmente, não tem nem uma coisa nem outra: lançou um "best of" há dois anos, para maquilhar a ausência de um álbum de originais, mas o seu nome já não arrasta o mesmo número de seguidores; e o seu casamento com Froom terminou de forma dolorosa, como se pode perceber pelas letras da maior parte das canções de "Songs in Red and Gray".

No entanto, o seu novo disco mostra vontade de digerir as dores do passado e procurar um rumo para o futuro. A resposta musical fica um pouco aquém do talento que Vega já manifestou noutras ocasiões, mas tal não significa que esta não seja uma obra a ter em conta, e com cinco ou seis canções de qualidade superior ("Your Maggie May", "It Makes Me Wonder", "Soap and Water", "Harbor Song", tocante na sua tristeza, ou as mais luminosas "Last Year's Troubles" e "Machine Ballerina"). Aliás, todos aqueles que desistiram da sua música no momento em que, pela mão de Mitchell Froom, batidas industriais e efeitos electrónicos entraram de rompante, podem voltar a sorrir, já que a cantora deu um passo atrás, na direcção dos seus discos mais próximos da tradição folk.

Nas actuações que tem vindo a realizar ao vivo, Suzanne Vega surge apenas acompanhada pelo baixista Mike Visceglia, o que é bem revelador do esforço de simplificação e de retorno à tradição de "songwriter", que ela, afinal, nunca deixou de ser. Em "Songs in Red and Gray", a produção de Rupert Hine valoriza o trabalho da guitarra acústica (embora também encontremos momentos mais sofisticados como "Solitaire"), e os arranjos estão ao serviço da sua voz, o que nem sempre acontecia quando Froom dava ordens. Isso permite realçar o seu trabalho literário, o que numa escritora como Vega é pelo menos tão importante quanto a parte musical.

Curiosamente, Suzanne Vega regressa ao passado também na citação "portuguesa", que já havia efectuado no distante "Ironbound", aqui falando de passagem de Portugal em "Harbor Song". É apenas um pormenor nessa atitude mais global de acertar contas com a música e com a vida, deitando fora o que não interessa e recuperando os momentos que lhe foram proveitosos. Com uma criança de cinco anos para criar sozinha e um passado de abandono e relações fracturadas, que para grande tristeza pessoal não foi capaz de interromper, a cantora novaiorquina não tem em "Songs in Red And Gray" o seu melhor disco, mas o balanço que nele realiza permite encarar o futuro com esperança. Esperemos, pois, que esse futuro não tarde demasiado, porque a música, se não quer ser apenas ambiente, necessita de quem saiba escrever canções. Como Suzanne Vega.

© João Miguel Tavares/DN


Suzanne Vega - "Songs in Red and Gray" (7/9) (BLITZ 02/10/2001)

Confesso que não me sabe nada mal voltar a ouvir uma Suzanne Vega mais "convencional", mais próxima das melodias desenvoltas que a celebrizaram nos anos 80 como "Calypso" ou "Cracking" ou "Luka"; confesso que as experiência mais "excêntricas" que o marido Mitchell Froom orientou em "99.9ºF" e "Nine Objects of Desire", mesmo que abrindo novas portas à produção criativa de Vega, me pareciam carregar excessivamente a estrutura fexível das canções da cantora-compositora nova-iorquina. Seria, por isso, um alívio reencontrar a fluência elegante de "Suzanne Vega" e "Solitude Standing" nestas "canções a vermelho e cinzento" que distam quatro anos do anterior trabalho de estúdio; seria, isto é, se "Songs in Red and Gray" não fosse tão evidentemente uma pausa para tomar o norte antes de partir outra vez à aventura.

A motivação deve ser toda encontrada no divórcio de Vega - com Froom fora de jogo profissional e pessoalmente, as letras (consistentemente excelentes) somam uma série de recados elípticos e meditações amargas sobre o fim do amor e o seu efeito na vida normal ("considerem-me uma viúva, rapazes/e explicar-vos-ei porquê/não foi o homem mas o casamento/que se afogou", em "Widow's Walk"; ou "o papá é um enigma escuro/a mamã uma mão-cheia de espinhos/tu és o meu papagaio de papel/apanhado outra vez nas tempestades caseiras", em "Soap and Water"; ou ainda "serei eu um passatempo durante as tardes/uma coisa numa corda/para ser atirada e recuperada", em "Machine Ballerina"). Sobretudo com Froom fora da produção, a música fica outra vez livre para respirar, como se tivesse sido libertada de um colete de forças que encolhera com o tempo; daí que não seja por acaso que muitos dos temas de "Songs in Red and Gray" nos remetam forçosamente para o passado - "If I Were a Weapon" é um gémeo puro de "If You Were in My Movie", o tom geral do disco (muito por causa da produção falsamente ingénua de Rupert Hine, a redimir-se de uma mão-cheia de excessos bombásticos, apesar do escorregão de "Machine Ballerina") recorda um cruzamento entre a simplicidade de banda de "Solitude Standing" e a sofistificação mal-interpretada de "Days of Open Hand".

O problema de "Songs in Red and Gray" é mesmo só esse - de um momento de pausa para retomar o fôlego não se esperam grandes saltos em frente, coisa que este disco não é nem pouco mais ou menos, preferindo concentrar-se na solidez da composição, sabendo que se as canções forem boas (e são, mesmo que não haja aqui nenhum clássico instantâneo ao nível de "In Liverpool" ou "Calypso", embora "Harbor Song" e a triologia de abertura com "Penitent", "Widow's Walk" e "Your Maggie May" lá cheguem perto) o resto virá naturalmente. Será o disco mais acessível de Suzanne Vega em muitos anos, é certo, e um disco que reconfortará os fãs mais antigos e mais assustados com evoluções recentes; mas é também um disco que apenas confirma que Suzanne Vega é uma das cantoras-compositoras americanas mais consistentes dos últimos vinte e cinco anos, o que já se sabia há uns largos anos. Um divórcio não é coisa fácil, e é por isso que se lhe desculpa que "Songs in Red and Gray" seja um intervalo (e um apreciável intervalo). Até porque não me sabe nada mal reencontrar a Suzanne Vega de que sempre mais gostei. (7/9)

©J.M. /BLITZ

Leonard Cohen e Suzanne Vega têm novos álbuns: Ten New Songs e Songs in Red and Gray (Público 12-10-01)

Mestre e discípula. Qual é um e qual é outro? É diferente o Outono de ambos. Cohen renunciou ao céu e afirma-se feliz. Vega continua a piscar, inquieta, mordida pelas abelhas. O ferrão saiu do espírito dele para se cravar na alma dela. Ele cala. Ela dança.

(...)
Danças com abelhas. Será Suzanne Vega capaz de estender a mão? De conservar e usar a força? De ser feliz? Como Leonard Cohen, seu mestre, Suzanne (uma das canções do canadiano chama-se assim, "Suzanne") colocou o ênfase na palavra "Song" no título do seu novo álbum, "Songs in Red and Gray". Assunção de um estatuto de cantor-compositor clássico que dispensa associações. As canções a "vermelho" e "cinzento" - o vermelho o coração, o cinzento do cérebro - têm uma só assinatura, imediatamente reconhecível: "Canções Suzanne Vega". À semelhança de Cohen, há uma voz e um estilo inconfundíveis, quer se goste ou não deles. E ainda como Leonard Cohen, Suzanne Vega não resiste a cantar sobre as suas desventuras amorosas. Com uma diferença: apesar dos santos e penitentes que assomram "Songs in Red and Gray", para si, o fim de uma relação não é o fim do mundo.

Suzanne, 42 anos, revolve com outra força as feridas de cada um de nós. Menos mito (mesmo a "Virgin Mary" de "It Makes Me Wonder" é a companheira de "uma exploração carnal" do "sagrado" e do "profano") e mais sangue fresco.
Nos 66 anos de Cohen, o sangue corre frio e devagar. Nela tudo arde ainda. O ardor do ferrão da abelha cravado na carne. Depois, quer se queira quer não, Suzanne sabe colorir as suas histórias com um vigor instrumental que Cohen sempre dispensou. E pintar-se com as imagens de uma simbologia da terra: folhas, abelhas, uma rosa-chaga, um baralho de cartas, aberto em copas - corações. Será uma forma de se cobrir. Cohen vai nu. Ela dança, ainda, como uma bailarina.

"Songs in Red and Gray" é, como não poderia deixar de ser, um álbum feito à medida de quem sente e sabe cantar com ternura aquilo que sente. Cohen vai descarnando a alma como um réptil. Vega brilha ainda como uma estrela cujo brilho irradia. Cohen arrefece. Vega aquece. Mesmo se "Songs in Red and Gray", balançando entre a maquinaria de cetim de "99.9ºF", orquestrações folky e o arvoredo outonal de segredos ditos, às escondidas, num sonho, não acrescente uma vírgula à grandeza, sinónimo de beleza, oferecida em "Days of Open Hand".

Ainda assim, o mestre deveria aprender com a dicípula. Que é, aliás, o que fazem todos os verdadeiros mestres.

©Fernando Magalhães/Público


Outono em Nova Iorque (Público 19-10-01)

Em "Songs in Red and Gray", Suzanne Vega fala dos seus dramas pessoais num tempo em que o drama passou a ser de todos. Canções de como o amor também dói como uma guerra.

"Songs in Red and Gray" foi editado logo após os trágicos acontecimentos ocorridos em Nova Iorque a 11 de Setembro. Nada será igual ao que era antes na escrita de Suzanne Vega. Mas como canta em "Last year's troubles": "Um infortúnio ainda é um infortúnio e o diabo ainda é o diabo". A cantora e compositora nova-iorquina falou ao PÚBLICO sobre o medo e o desconhecido. E do seu próprio Outono.

P. - Imaginamos que já tenha respondido a esta pergunta dezenas de vezes nas últimas semanas, mas temos que a fazer na mesma. Onde se encontrava na manhã de 11 de Setembro? O que sentiu naquele momento?

R. - Estava em Nova-Iorque e a primeira coisa em que pensei foi no meu irmão, que nesse momento se encontrava a trabalhar num edifício situado entre as duas Torres. Felizmente conseguiu escapar ileso. Só depois é que me fui apercebendo de tudo o que estava a acontecer, através da televisão. A princípio, não quis acreditar... como para muitas pessoas, parecia estar a ver um filme. Mas depois vi as Torres a demoronarem-se e comprendi que era tudo real. Um amigo meu, Jack Hardy, que compôs o último tema do novo álbum ("St. Clare") e que não tem televisão, saiu para a zona da downtown também à procura de um irmão que trabalhava numa das Torres e presenciou de perto o desmoronamento. Teve de fugir e abrigar-se debaixo de uma porta. As pessoas fugiam na direcção do rio. Foi inacreditável!

P. - Passado um mês sobre a tragédia, o que aconteceu mudou certamente a sua forma de encarar o mundo. Vai passar a escrever de forma diferente, daqui em diante?

R. - É difícil responder. Mas passei as últimas semanas a reavaliar as canções do novo álbum e cheguei à conclusão de que não conseguirei voltar a escrever do mesmo modo. Ao longo de todos os meus discos até "Songs in Red and Gray" fiz parte, desde os tempos de estudante, de uma associação de compositores "interventivos". Presentemente, ainda não sei através de que ângulo passarei a ver as coisas. É duro. As notícias chegam a cada momento. Na "downtown" ainda se sente o cheiro a queimado...

P. - Pensa que poderá acontecer algo de semelhante ao sucedido nos anos 60, durante a guerra do Vietname: um ressurgimento da música contestatária ou interventiva, social e politicamente empenhado? A opinião pública americana começa a dividir-se sobre as consequências e a oportunidade da intervenção militar no Afeganistão...

R. - Penso que sim...Mas a atitude será diferente. Nos anos 60 havia uma rebelião contra o governo. Agora é tudo mais confuso. A ideia de que a retalição deveria ser imediata é bastante localizada, centrada em Nova Iorque, não sei até que ponto se generalizou no resto da América. O sentimento que impera neste momento é o medo. Para se poder falar sobre o que aconteceu é preciso pôr primeiro os sentimentos em ordem. A questão é: como?

P - "Songs in Red and Gray" é um álbum intimista e pessoal. Perante a evidência trágica da história, que sentido encontra ainda na exposição dos seus dramas pessoais?

R. - Sim...eu sei...o álbum saiu uma semana e meia a seguir aos atentados e agora que o ouço, sinto que os meus problemas pessoais parecem pequenos em comparação com a crise global que atravessamos. Mas é preciso continuar a escrever canções. Mas como escrever canções sobre a tragédia, quando começo a pensar em Jack e no seu irmão, ou nas pessoas que estavam nas Torres? Mesmo os compositores da tal associação que referi estão a repensar as suas prioridades.

P. - E quais são as suas prioridades, neste momento?

R. - A minha filha, sempre. Tem sete anos, uma idade engraçada. Não está a viver de perto o que aconteceu (presentemente vivemos na "uptown"), embora, claro, tenha assistido a tudo pela televisão e ficado chocada. Tentei explicar-lhe com palavras simples o significado da guerra, as imagens dos aviões a chocar contra as Torres, mas ao mesmo tempo proporcionar-lhe um sentimento de segurança, de refúgio. Sei que muitas crianças preferem não falar do assunto e refugiar-se no seu mundo de fantasia. É complicado explicar aquelas imagens de fogo, de pessoas a saltarem pela janela...Nenhuma criança poderá compreender o que se passou.

As pessoas estão assustadas. Nos aeroportos, a empregada pede o B.I. e deseja-nos um bom voo e as pessoas desatam a chorar.

P. - Uma das canções do álbum, "If I were a weapon", aborda a dicotomia amor-ódio, relações sentimentais que se transformam em guerras...Depois de tudo o que está a acontecer, ainda há lugar para a fúria e a violência na música pop? Em Hollywood os realizadores estão a evitar filmar esses tópicos...

R. - Penso que esse lugar ainda existe. Fiz uma canção para "99,9ºF" chamada "Blood makes noise", uma canção muito dura, de confrontação e de medo. Na minha última digressão ainda hesitei em tirá-la do alinhamento, mas acabei por não o fazer e funcionou bem. As canções ganham leituras e interpretações diferentes, com o tempo. Estive a ouvir "Last year's troubles", do novo álbum, e tive uma sensação esquisita ao ouvir um verso como "trouble is still trouble and evil still evil"...

P.- "Priscilla", pelo contrário, proporciona uma sensação de alegria...

R. - Oh, é uma canção simples, sobre alguém que, apesar da idade avançada e de não ser muito bonita, é feliz.

P. - É uma das várias canções de "Songs in Red and Gray" onde aparece a palavra "dança"...

R. - Suponho que sim (risos) mas desde que parti um braço e ando com ele enegessado nem sequer posso tocar guitarra. Contudo, a imobilidade fez-me ter mais consciência do meu corpo, dos seus mais ínfimos movimentos. É desconfortável, mas se as pessoas percebessem que nem todas as coisas boas são confortáveis, talvez repensassem as suas prioridades.

P. - "Songs in Red and Gray" é apontado por alguns como um dos seus álbuns mais conotados com a escrita poética de Leonard Cohen. Concorda?

R. - É possível. Adoro Leonard Cohen, mas a minha escrita é mais doméstica. Escrevo apenas sobre o que me rodeia, as mais ínfimas coisas. Ele fá-lo como se tudo se tornasse uma referência, como dramas que podem ser visitados e vividos pelos outros. Quando ele usa um imaginário religioso é o mundo inteiro que está envolvido, algo de sagrado, enquanto eu me sirvo dele para as minhas explorações pessoais. Em "It makes me wonder", por exemplo, a Virgem Maria simboliza tanto o lado espiritual como o carnal. Ambos co-existem. É uma canção sobre uma demanda de um ideal irrealista. E, ao contrário de Cohen, não cozinho as minhas próprias refeições embora saiba preparar este ou aquele prato (risos).

P. - Essa canção tem um sabor bastante folk...

R. - Sim, eu diria que tem muito a ver com Woody Guthrie.

P. - O produtor e autor dos arranjos é Rupert Hine, alguém que passou os anos 70 a gravar discos de rock progressivo. Por que razão o escolheu?

R. - Foi ele que me "escolheu" a mim depois de ouvir uma "demo" acústica que lhe enviei e ter ficado bastante comovido, apesar de que, em última análise, continuo a ser eu a tomar as decisões finais no estúdio. Perguntou-me se eu estava disposta a uma reorientação absoluta da minha música. Respondi-lhe que não. Apenas pretendi, como sempre, "mean what I say and say what I mean". Ficou um bocadinho desiludido pois estava mesmo disposto a fazer uma remodelação completa, mas acabou por conferir ao disco um "groove" que me agrada.

P. - Há folhas mortas. As cores do álbum são os dourados e o vermelho. As mesmas da sua alma, neste momento?

R. - Sim, são ambos outonais.

©Fernando Magalhães/Público